A Estrada Nacional 2
Introdução
(...) A Estrada Nacional 2 (N2)
foi projetada como ligação entre Chaves e Faro num percurso que segue a espinha
dorsal do país, sendo a estrada nacional mais extensa de Portugal e a única que
o atravessa de lés a lés. Atravessa
36 municípios, passa pelo interior das povoações e liga paisagens tão
diferentes como as vinhas durienses, as planícies alentejanas ou as praias
algarvias. A N2 é a
terceira estrada mais extensa do mundo, a seguir à rota 66 dos Estados Unidos
da América (EUA) e à rota 40 da Argentina.
A N2 é uma manta de retalhos, com uma variedade de relevos e paisagens,
gentes e culturas, incomparável com qualquer outra Estrada de Portugal. Cruza
alguns dos mais importantes rios de Portugal e Ibéricos, nomeadamente Mondego, Zêzere,
Tejo, Douro, Paiva, Corgo, Dão, Tâmega, Ceira. Várias serras também fazem parte
deste itinerário: Caldeirão (Algarve), Lousã (Coimbra), Montemuro (Viseu) e
Marão (Vila Real). Ao longo deste "meridiano" intra-português também
transpomos algumas barragens: Montargil
(Sôr), Cabril (Zêzere) e Aguieira
(Mondego). (...)
Etapas
Decidi fazer a N2 em autonomia total e sem apoio,
por isso e para facilitar a logística dos transportes dividi este desafio em 2
grandes etapas.
A primeira etapa foi realizada em 5 dias no sentido
Sul-Norte, entre Abrantes e Chaves e totalizou 404 kms.
1º dia -
Abrantes – Pedrógão Grande ----- 78km
2º dia - Pedrógão
Grande – Penacova ---- 82km
3º dia - Penacova –
Viseu ------------------- 79km
4º dia - Viseu –
Vila Real --------------------- 99km
5º dia - Vila Real –
Chaves ------------------- 66km
A viagem de regresso foi totalmente realizada de
bicicleta, primeiro pela ecopista da linha do Corgo (96km), depois à beira do
rio Douro até ao Porto (135km) e os restantes 270kms, entre o Porto e Caldas da
Rainha, foram ao longo da costa.
No total foram 11 dias e 905km.
A 2ª parte da N2, prevista para o Outono, também
terá início em Abrantes e seguirá a direção Norte-Sul, de modo a percorrer os restantes
333km até Faro, no marco que assinala o km 737.
11 Agosto (dom) - Viagem até Abrantes
Depois de uma boleia
até Santarém, viajei no comboio intercidades das 20h04 até Abrantes, com
bilhete de bicicleta (este comboio dispõe de 2 lugares para ciclistas).
Chegado à estação de
Abrantes, atravessei a ponte do rio Tejo e subi até à Pousada de Juventude onde
pernoitei, depois de jantar uma feijoada de choco junto ao rio Tejo e à beira
da N2.
Na minha camarata
estava outro ciclista de nacionalidade estrangeira, mas nem conversámos um com
o outro, pois quando cheguei ele já estava na cama e no dia seguinte saiu mais cedo.
12 agosto (seg)
1ª etapa - Abrantes
– Pedrógão Grande --- 77km
Acordei por volta
das 7h00, organizei os alforges e tomei o pequeno-almoço na pousada (incluído no preço – 12,5€) e comecei a pedalar pouco depois das 8h30.
Nos primeiros quilómetros
usei o GPS para mais facilmente encontrar a N2.
O primeiro marco
quilométrico que encontrei, foi à saída da ponte sobre o Tejo em Abrantes e
indicava 404km até Chaves.
Atravessei Alferrarede
e 10km depois fiz um ligeiro desvio para passar por dentro da vila de Sardoal.
Em Vila de Rei, onde
passei às 11h00, parei para beber uma coca-cola e comer um pastel de nata.
Continuei e mais à
frente fiz um pequeno desvio e uma íngreme subida para visitar o centro
geodésico de Portugal de onde a vista de 360º é magnífica.
Estava a 18 km da
Sertã e foi lá que almocei. Não conhecia esta vila e fiquei impressionado com a
beleza da zona ribeirinha e também com a enorme vitalidade industrial
desta região.
Depois do almoço
continuei até Pedrógão Pequeno por um bonita e tranquila estrada com muitas
sombras de floresta mediterrânica. Desci em direção à barragem do Cabril, onde
fiz uma paragem de 2 horas para descansar e tomar banho nas transparentes águas
da albufeira.
Como já passava das
18h00 e já tinha pedalado 77km, decidi ficar no parque de campismo do Cabril. Montei
a tenda num local com uma espetacular vista para a barragem, tomei um duche e
fui ao supermercado de Pedrógão Grande comprar comida para o jantar e para o pequeno-almoço
do dia seguinte.
13 agosto (ter)
2ª etapa – Pedrógão Grande –
Penacova ---- 81km
Saí do parque de
campismo eram 8h40 e atravessei a vila de Pedrógão Grande.
Liguei o GPS, uma
vez que tive dúvidas se estaria na estrada certa, pois a N2 não está muito bem
sinalizada.
Os primeiros
quilómetros foram tranquilos em planalto, para depois descer até à povoação de
Alvares (alt. 320m), onde iniciei a subida da serra da Lousã, mais de 10km até ao
alto de Cabeçadas (alt. 775m), onde virei à esquerda.
Antes de iniciar a descida, parei para comer e descansar junto ao antigo café “Toca do Judeu”, onde estive à
conversa com o proprietário, um simpático e cheio de vitalidade senhor de 89
anos.
E a partir daqui foi
uma espetacular descida de 10km até Góis (alt. 180m) a uma média de 40km/h, num
serpenteado de curvas com bom piso e com ótima inclinação, o que permitiu
usufruir bastante da descida.
Em Góis, comprei
comida num minimercado e fui para o
relvado da praia fluvial do Penedo dar
uns mergulhos, almoçar e descansar naquelas belas sombras.
Era véspera
do Encontro de Motos de Góis e já se viam motards
por todo o lado.
Voltei à estrada já
passava das 14h30. Os primeiros quilómetros foram pelo vale do rio Ceira, mas depois vieram as subidas, antes de voltar a descer para Vila Nova de Poiares, onde fiz nova
paragem para descansar e beber uma coca-cola.
Continuei mais uns
quilómetros até encontrar as margens do rio Mondego, que me acompanhou até ao
Parque de Campismo Municipal em Vila Nova (Penacova), localizado entre o rio
Mondego e a N2, onde cheguei cerca das 16h30. Montei a tenda, dei um mergulho
no Mondego e fui comprar comida para o jantar.
14 agosto (qua)
3º dia – Penacova – Viseu --79km
A manhã acordou fria
e com nevoeiro no vale do Mondego. Depois de arrumar e comer, comecei a
pedalar eram 8h15. Os primeiros quilómetros, pela antiga N2 foram tranquilos
até à povoação de Oliveira do Mondego, onde a N2 foi engolida pelo IP3, estrada por
onde tive que circular alguns quilómetros até passar a ponte da barragem da
Aguieira.
Mais à frente, os
ciclistas estão impedidos de continuar no IP3, pelo que pedalei alguns
quilómetros por uma estrada de serviço, sempre próximo do rio Mondego. Foi já
perto de Santa Comba Dão que voltei à antiga N2, por onde continuei até à
aldeia de Vimioso (Santa Comba Dão) onde visitei a casa onde nasceu o ditador António
Oliveira Salazar, assim como o cemitério onde está sepultado em campa rasa,
conforme foi seu desejo.
Aqui tomei a opção
de, em vez de continuar até Viseu pela N2, seguir pela ecopista da linha do
Dão, na procura de mais tranquilidade e segurança. Esta ecopista com 49km de
extensão, foi construída numa parceria entre os 3 municípios por onde passava a
antiga linha, e cada um pintou o piso do respetivo troço de cor diferente, de
azul no concelho de Santa Comba Dão, de verde em Tondela e de laranja em Viseu.
Entrei na ecopista poucos
metros à frente da estação de comboios de Santa Comba Dão (linha da Beira Alta)
e gostei muito da primeira parte, que segue até Tondela, ao lado do rio Dão.
Em Tondela fiz um
desvio até à entrada da cidade, onde almocei uma francesinha. Antes de voltar à
ecopista, e porque estava muito calor, decidi dormir uma sesta numa sombra na antiga
estação de Tondela. Fiz uma paragem para beber uma coca-cola, comer um pastel
de nata e encher o cantil na antiga estação de Figueiró, que foi requalificada com
muito bom gosto como snack bar.
Cheguei a Viseu,
pouco depois das 16h30 e fui direto à Decathlon
comprar um colchão de encher, pois o colchonete que levava não era lá muito
"ortopédico". Este desvio traduziu-se em mais 12kms.
Depois de passar
pelo centro histórico de Viseu dirigi-me à mata do Fontelo, à procura do parque
de campismo, mas fui informado que estava fechado e que agora apenas tem as
valências de acampamento de escuteiros e albergue de peregrinos. Resolvi tentar
a minha sorte e consegui ficar no albergue de peregrinos, um acolhedor edifício
de madeira com 16 beliches (3€), onde naquela noite não pernoitou mais ninguém.


Depois de um banho,
fui jantar à Feira de S. Mateus e ainda assisti ao concerto do cantor Fernando
Daniel.
15 agosto (qui)
4º dia – Viseu – Vila Real ---- 99km
Saí do albergue
pelas 8h30 e desci até ao local da Feira de S. Mateus para apanhar a N2. Os primeiros quilómetros até às termas do
Carvalhal foram tranquilos, mas depois de uma descida até ao vale profundo do rio Paiva (alt. 440m), em que fui "escoltado" por um enorme grupo
de “motard’s”, foi preciso subir
bastante até ao centro de Castro Daire, onde parei para encher o cantil numa
fonte e lanchar. A subida continuou durante mais 20km até ao alto de
Bigorne (alt. 970m), o ponto mais alto de toda a N2. E finalmente chegou
a descida. 10km até Lamego e mais 13km até à Régua. Em Lamego fiz uma paragem para almoçar numa
esplanada da avenida, em frente do santuário de Nossa Senhora dos Remédios.

Voltei à estrada e continuei a
descer envolvido pela grandiosa paisagem do Douro, pintada de vinhas em
socalcos. Atravessei o Douro pela ponte pedonal da Régua (alt. 60m), onde
cheguei em dia de feira e com muito calor. Descansei um pouco e bebi uma
coca-cola antes de ganhar coragem para os últimos 23km do dia.
A paisagem
continuava deslumbrante, mas foi quase sempre a subir até Vila Real, debaixo de
muito calor e ausência de sombras. Uns quilómetros antes de iniciar a descida até
à ponte do rio Corgo à entrada de Vila Real pela N2, parei para beber mais um
refresco. Atravessei a zona antiga da capital de Trás os Montes e continuei até ao parque de campismo. Montei
a tenda, tomei um banho e fui jantar uns secretos de porco preto numa ruela na
zona antiga. E fui dormir, pois tinha sido uma etapa dura… pelo calor, pelos
quilómetros, pela altimetria e pelo peso da bicicleta (22kg) que não me “deixava”
subir a mais de 8-10km/h.
16 agosto (sex)
5º dia Vila
Real – Chaves ----- (66km)
Estava a 66km de
Chaves. Saí de Vila Real às 8h30 e os primeiros 11km foram a subir, até chegar
ao planalto por onde pedalei os restantes até Vila Pouca Aguiar (alt. 730m),
onde cheguei por volta das 12h00. Dei uma volta pela vila, almocei e continuei.
Faltavam 31km para Chaves.
Depois foram 10km a
descer até Pedras Salgadas e outros tantos até Vidago, onde visitei o majestoso
Hotel Vidago Palace, inaugurado em 1910 pelo rei D. Manuel II.
Até chegar a Chaves,
foi mais um sobe e desce, debaixo de muito calor.
Chaves fica num vale junto ao Rio Tâmega e desde tempos
remotos foi povoada por Visigodos, Mouros e Romanos. A ponte romana com 12 arcos
e 150m é uma fantástica obra de engenharia.
Fui ao marco do quilómetro zero tirar a foto da chegada, passei pela
fonte termal onde bebi um copo de água das nascentes termais, que são as mais quentes da
Europa (cerca de 73ºC) e fui almoçar ...e descansei um pouco antes de iniciar a viagem de regresso.
Balanço Final
Foram 5
dias intensos, em que passei por locais fantásticos.
A N2
permite-nos viajar por um Portugal autêntico, rico em história e cultura e sempre
rodeado de paisagens maravilhosas.
É um
grande desafio para qualquer ciclista. Mas viajar em autonomia e a acampar, com
uma bicicleta a pesar 22kg, transportando todo o equipamento básico para sermos
auto-suficientes, obriga a fazer as subidas muito devagar, muitas vezes a 8km/h
e isso não permite fazer muitos quilómetros por dia.
Há quem
faça a N2 como se de uma competição se tratasse, mais focados em estatísticas
cronométricas, do que em apreciar e usufruir de tantos locais cheios de beleza
e história. Já houve quem fizesse os 737km da N2 em apenas 29h. Outros
fazem-no em 3, 4 ou 5 dias.
Eu não
faço parte desse tipo de ”viajantes”. A N2 merece ser vivida e saboreada com
mais tempo. Por isso afirmo que viajar devagar é fantástico, pois dá-nos mais
tempo para apreciar a identidade das povoações e usufruir dos cheiros e das
cores das paisagens.
E viajar sozinho
é bom porque somos verdadeiramente o comandante de nós próprios. Temos todo o
tempo para meditar ou refletir, somos nós quem escolhe o ritmo, as etapas, as
paragens, as comidas e os locais para descansar ou pernoitar.
O regresso
a casa
1– Pela Ecopista do Corgo (96km)
Depois de ter chegado ao marco que indica o Km 0 da N2 e assim ter
completado a 1ª parte da travessia da mais extensa estrada nacional, regressei
ao Peso da Régua pela Ecopista do Corgo, que com uma extensão de 96 km, foi o resultado da requalificação da
desativada linha de caminho de ferro do Corgo (originalmente denominada Linha do Valle do Corgo ou Caminho de Ferro
da Regoa a Chaves), que unia as localidades de Peso da Régua e Chaves,
passando por Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas e Vidago.
Esta linha foi inaugurada em 1910 e concluída em 1921 com a chegada a Chaves. As primeiras locomotivas a vapor mantiveram-se
até 1978, altura em que foram substituídas pelas diesel. O troço entre Vila
Real e Chaves foi encerrado em 1990, enquanto a ligação entre a Régua e Vila
Real foi desativada para obras em 2009, sendo totalmente encerrada pela Rede
Ferroviária Nacional em Julho de 2010.

Esta ecopista está
ciclável em praticamente toda a sua extensão, mas só no concelho de Vila Pouco
de Aguiar é que o pavimento é betuminoso.
2 - Pelas margens do Douro (135km)
A partir de Peso da Régua, continuei até ao Porto, ao longo das margens do rio Douro, a maior parte do tempo pela N108. Durante os primeiros quilómetros pedalei à beira do rio, mas depois fui subindo até altitudes acima dos 600m, de onde pude desfrutar de fantásticas vistas sobre o rio Douro.
É muito bonita a foz do rio Paiva. Em Entre os Rios, local onde o Rio Tâmega se junta ao rio Douro, visitei o memorial às vítimas da queda da ponte.
A aproximação ao Porto, pelo passadiço que se estende por muitos quilómetros até ao Freixo, é espetacular, mas a chegada ao centro foi um choque, tal era a multidão de turistas que se acotevelava na baixa de Vila Nova de Gaia, na Ribeira do Porto e em cima do tabuleiro da Ponte D. Luís.
3 – Ao longo da costa (270km)
Depois de ter
pernoitado no Albergue da Juventude do Porto, retomei a viagem de regresso a
casa, desta vez ao longo da costa, pedalando e dando uns mergulhos. Despedi-me
do Douro e continuei pelas praias da Afurada, Madalena, Espinho, Esmoriz,
Furadouro.
No dia seguinte a
ria de Aveiro foi minha companhia durante mais de 40 quilómetros, (Vagos,
Torreira, S. Jacinto, Costa Nova, Vagueira, Mira e Tocha).
Na penúltima etapa passei
por Quiaios, Buarcos Figueira da Foz, Leirosa, Lagoa da Ervideira, Pedrógão e
Praia da Vieira.
E no último dia passei
por S. Pedro de Moel, Paredes, Nazaré, S. Martinho do Porto e
Caldas da Rainha.