domingo, 30 de junho de 2019

Caminho de Finisterra


O Caminho de Santiago de Finisterra

 


Introdução

Depois de 13 peregrinações pelos Caminhos de Santiago achei que era o momento para fazer o Caminho de Finisterra.


Muitos peregrinos depois de darem um abraço ao apóstolo no altar da Catedral de Santiago e receberem a sua benção, continuam  “ o caminho das estrelas  em direção ao mar, um perfeito epílogo para terminar a peregrinação, sossegar a alma e purificar o corpo nas águas revoltas do Atlântico na Costa da Morte”.


1ª etapa – Santiago – Córcubion  (74km)

A viagem para Santiago fez-se de carro. Depois de uma paragem em Ponte de Lima para pernoitar na Pousada da Juventude, no dia seguinte cheguei a Santiago pouco depois das 9h00. Estacionei o carro em parque não pago, a cerca de 500m da Catedral, comecei a pedalar eram cerca de 10h00.

O tempo estava cinzento, mas agradável para andar de bicicleta. Os primeiros quilómetros do percurso são muito bonitos, sempre verdejantes e através de bosques com caminhos muito bem cuidados e ladeados por muros de pedra.


Como era Semana Santa encontrei muitos peregrinos pelo caminho, o que me fez ficar apreensivo em relação à lotação dos albergues. Por precaução, em Negreira comprei um colchonete numa loja chinesa, para a eventualidade de ter que dormir no chão.


O primeiro ponto de interesse desta etapa foi a ponte medieval do rio Mazeira, que fica perto de Negreira, uma vila de média dimensão.

A partir daqui o tempo piorou. Entre Negreira e Oliveiroa apanhei uns pingos de chuva. Neste troço atravessei muitas quintas e pequenas aldeias rurais, onde parece que a grande indústria por estas bandas é a produção de estrume, cujo cheiro nos persegue durante vários quilómetros.


Pelo meio apanhei uma íngreme subida que teve que ser feita a pé e que passa por um miradouro de onde se avista a barragem de Fervenza.


Depois de Hospital cheguei a um cruzamento onde tive de decidir se ía por Múxia ou por Corcubión. Como a previsão meteorológica para o dia seguinte era de chuva e vento de sul, optei por seguir por Cee e Corcubión.


Depois da bifurcação, foi sempre debaixo de chuva e nevoeiro que percorri os últimos 15 quilómetros até ao albergue de S. Roque (Corcubión) onde pernoitei. Um simpático hospitaleiro e um grupo de espanhóis muito animados, tornaram o serão uma festa com um karaoke improvisado. O jantar foi confecionado pelo hospitaleiro, tal como o pequeno-almoço …e o pagamento foi donativo.

  2ª etapa  Corcubion -  Finisterra – Múxia – Oliveiroa (76km)

Depois de um pequeno-almoço no albergue, iniciei a 2ª etapa e foi debaixo de chuva que percorri os primeiros quilómetros bordejando a bela praia de Longosteira até ao cabo Finisterra.


A paisagem é muito bonita mas a chuva e o vento tornou dura a chegada ao cabo de Finisterra, onde tirei umas fotos e carimbei a credencial no restaurante do hotel.


Regressei a Fisterra para apanhar o caminho para Múxia. Entretanto o tempo melhorou e foi possível desfrutar de uma caminho muito bonito, com belas vistas sobre o mar da Costa da Morte. Depois de passar por Lires, onde existe um café e albergue, foram vários quilómetros a subir até Lourido. 

Depois de uma enorme descida comecei a avistar Múxia e foi sempre à beira do mar que fiz a aproximação a esta bela vila e cheguei ao Santuária da Virgem da Barca, local bonito e cheio de história. Esta igreja, que fica em cima do mar, foi muito maltratada há acerca de 2 anos a quando dos violentos temporais naquela costa.


Contornei o monte e foi com um belo sol, num jardim em frente da marina que almocei.

Entretanto iniciei o caminho de regresso a Santiago, o objetivo foi dormir em Oliveiroa. Mas tive algumas dificuldades em encontrar o caminho de regresso em direção a Dumbría, pois as setas estavam marcadas a pensar em quem vai na direção oposta. Felizmente levava GPS que me permitiu avançar sem grandes enganos.


Este troço não é particularmente bonito, menos verdejante e com muito eucalipto.

Passei em Dumbría, uma povoação bem cuidada e voltei a passar na rotunda da bifurcação e depois foi sempre a descer até Oliveiroa, onde pernoitei no albergue privado Casa Loncho, que possui valências de albergue, residencial e restaurante. Esta aldeia é um bom exemplo de uma pequena povoação que foi revitalizada para dar apoio aos inúmeros peregrinos que por ali passam.



3ª etapa -  Oliveiroa-Santiago  (55km)

Este foi a etapa de regresso a Santiago. Faltavam cerca de 55km para Santiago e saí por volta das 9h00, depois do pequeno-almoço no restaurante da Casa Loncho.



A meteorologia esteve boa, mas não foi uma etapa fácil. O caminho é muito ondulado, com subidas mais acentuadas e mais compridas no sentido de Santiago, que obrigaram a vários bocados com a bicicleta à mão. Nos primeiros 20km o cheiro a estrume foi uma constante e uma tendinite no joelho obrigou-me a defender ainda mais.


Em Negreira, fiz uma pequena paragem para lanchar junto a uma avenida de pequenas lojas.


Os últimos quilómetros foram um verdadeiro carrocel de subidas e descidas, com trilhos muito bonitos pelo meio de bosques densos, donde se começa a avistar ao longe as torres da Catedral. Depois de atravessar a Ponte Sarela, fiz a última subida até à praça do Obradoiro, que estava repleta de peregrinos, pois estávamos em plena Semana Santa.


Comprei algumas lembranças, fui à oficina do peregrino carimbar a credencial e regressei ao carro.

E assim concluí mais uma peregrinação a Santiago, desta vez pelo Caminho de Finisterra, caminho que encerra muitas histórias e lendas e belas paisagens.

 

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Uma viagem de bicicleta pela costa portuguesa


Introdução

Pedalar por toda a costa portuguesa era um sonho de há muitos anos, recentemente tornado realidade. Ao longo de vários fins de semana, na companhia de familiares e amigos, fomos percorrendo os mais de 900 quilómetros da nossa costa, indo ao encontro do encanto das praias, arribas, estuários, baías, promontórios e cidades costeiras do nosso litoral.





A Costa Verde (110km)

Começámos em Caminha, junto à foz do rio Minho e fomos até à Praia do Moledo, pela ecovia do Cristelo, que atravessa a Mata do Camarido. Sempre junto ao mar, continuámos até Vila Praia de Âncora pela ecovia do caminho do sargaceiro.




Para evitar o desconforto das estradas empedradas do litoral minhoto percorremos alguns quilómetros na N-13 e chegámos a Viana do Castelo pela ciclovia litoral norte que se inicia na frente atlântica da cidade, passa pelo centro histórico e termina junto do rio Lima. Depois de atravessar a velha ponte Eiffel, agora exclusivamente pedonal, regressámos à N-13 em direção a Esposende, que abordámos pela ciclovia ribeirinha que segue ao longo da marginal norte do Rio Cávado. Esta etapa terminou no camping de Ofir.



No dia seguinte, tentámos ir junto à costa, mas só encontrámos estradas empedradas, pelo que regressámos à N-13 até à Póvoa de Varzim, onde começa a extensa ciclovia da marginal atlântica, que termina em Vila do Conde junto ao Forte de S. João Baptista.


Depois de passar a ponte sobre o rio Ave a viagem continuou pelas praias de Mindelo e Angeiras e foi pelo passeio marginal de Leça da Palmeira que chegámos ao Porto de Leixões. Entrámos em Matosinhos pela ponte móvel sobre o rio Leça e de novo em ciclovia, pudemos desfrutar da beleza daquela marginal marítima que começa em Matosinhos, continua pela praia da Foz e entra pelo rio Douro até ao cais da Ribeira.


A Costa de Prata (280km)

Depois de almoçar uma francesinha na baixa portuense, entrámos em Vila Nova de Gaia pelo tabuleiro inferior da ponte D. Luís e continuámos pelo passadiço da margem esquerda do Douro até à Afurada. Daqui até Espinho, foram 20 quilómetros de ciclovias espetaculares, que sempre ao lado do mar, cruzam as praias da Madalena, Senhor da Pedra, Miramar e Granja.



Após atravessarmos a movimentada praia de Espinho pela ecovia do litoral Espinho- Silvalde, fizemos um pequeno desvio para espreitar a barrinha de Esmoriz. Logo a seguir, na Cortegaça prosseguimos viagem pela tranquila ciclovia que vai até ao Furadouro onde começámos a ter a companhia da Ria de Aveiro. Sempre ao lado da ria passámos na praia da Torreira e em S. Jacinto apanhámos o ferry que faz a travessia da barra de Aveiro.




Já na Costa Nova, continuámos em ciclovia pelas praias da Vagueira e Cais do Areão, terminando a etapa na Praia de Mira. No dia seguinte, prosseguimos pela esburacada estrada florestal, que passa próximo da praia da Tocha e continua até Quiaios, no sopé da serra da Boa Viagem.




 Para chegar à Figueira da Foz, em vez de subir a serra, optámos por atravessar o cabo Mondego pelo estradão da pedreira, ao lado de falésias perigosas com vistas magníficas. Com o farol à vista, lá no alto, foi preciso vencer a primeira subida em mais de 200 quilómetros!

Depois do farol, foi sempre a descer até à praia de Buarcos, onde tem início a ciclovia da Figueira da Foz, que percorre todo o passeio marítimo e continua pela marina até à estação ferroviária. Após uma paragem na marginal para um refresco, atravessámos a imponente ponte sobre o rio Mondego e continuámos durante alguns quilómetros pela N-109, passando próximo das praias da Costa de Lavos, Leirosa e Osso da Baleia.



Na povoação do Carriço, desviámos à direita para apanhar uma das mais belas e extensas ciclovias nacionais, que se estende até à Nazaré por mais de 40 quilómetros, com passagem pela lagoa da Ervedeira, praia do Pedrógão, praia da Vieira, S. Pedro de Moel, Polvoeira, Paredes de Vitória e Praia Norte da Nazaré. Já se avistava o Santuário da Nossa Senhora da Nazaré quando abandonámos a ciclovia.



Depois de apreciar a espetacular vista do Sítio, descemos até à bela praia da Nazaré, onde o aroma do peixe grelhado nos convidou a almoçar num restaurante ribeirinho. De novo na estrada, passámos o porto de abrigo e subimos a Serra dos Mangues. É uma subida dura, mas a deslumbrante vista lá do alto para as praias dos Salgados e da Nazaré compensa o esforço. Mais à frente, depois de fazermos um pequeno desvio em terra batida para espreitar a bonita praia da Gralha, descemos até à baía de S. Martinho do Porto, que contornámos até Salir do Porto, prosseguindo pela ciclovia da estrada Atlântica até à Foz do Arelho.



Continuámos pelas margens da lagoa de Óbidos, que foi percorrida ao longo da bela ecopista que a contorna em todo o seu perímetro, até à Praia dos Pescadores. A caminho da Praia d’el Rei pedalámos alguns quilómetros em estrada e só próximo da praia de Almagreira voltámos aos caminhos de terra para um pouco de emoção nos divertidos trilhos que, sempre ao lado do mar, nos levam até à praia do Baleal, onde fizemos nova paragem agora para saborear um gelado enquanto apreciávamos os surfistas. Seguimos até Peniche pela ciclovia e contornámos a península passando pelo Cabo Carvoeiro, Forte e Porto de Abrigo.


Prosseguimos pelas praias dos Supertubos e Consolação, e por trilhos sobre as falésias, continuámos até S. Bernardino. A partir daqui, devido ao acidentado da costa, a opção foi pedalar pela N-247 até ao desvio para a praia da Areia Branca (Lourinhã). Só voltámos às ciclovias depois de Porto Novo (Vimeiro), a caminho da praia de Santa Cruz.





A Costa de Lisboa (180km)

De novo por trilhos junto à falésia, continuámos até à praia da Foz do Sisandro. Passámos o rio pela ponte de madeira e sempre por estradas secundárias visitámos as praias da Calada, S. Lourenço e Ribeira de Ilhas. Já o sol se tinha escondido no horizonte quando chegámos à Ericeira, onde terminou esta etapa.




No dia seguinte, após atravessar a foz do rio Lizandro - local repleto de memórias das semanas de campo quer vivi nos meus tempos de tropa em Mafra - prosseguimos até à praia de S. Julião, de novo por trilhos em cima de magníficas falésias.

Até à praia do Guincho, devido à inexistência de ciclovias, circulámos a maior parte do tempo por estradas ou caminhos de terra próximo do mar, passando pelas conhecidas praias do Magoito, Azenhas do Mar e Praia das Maçãs, sempre com a bela vila de Sintra a espreitar lá no alto. Depois de uma paragem na Praia das Maçãs, voltámos a subir bastante até ao desvio para o cabo da Roca – o ponto mais ocidental da Europa. Continuámos a subir até Malveira da Serra, para depois saborear os cerca de sete quilómetros de descida até à praia do Guincho.




Pela ciclovia que segue sempre junto ao mar e com o vento a soprar nas nossas costas, foi num instante que chegámos à Marina de Cascais. Depois de uma paragem na Praia dos Pescadores e de um gelado no Santini, continuámos pela marginal, uma das mais bonitas costas do nosso país.
Mas aqui a vida dos ciclistas não é fácil. Porque não podemos circular no passeio marítimo, temos de pedalar na perigosa estrada marginal. Apesar de ser proibido a nossa opção foi seguir em cima do passeio da estrada marginal. Só em Caxias voltámos às ciclovias, desfrutando da tranquilidade e beleza das margens do rio Tejo e seria assim até Belém, onde ainda houve tempo para comer o famoso pastel de Belém, antes de apanhar o cacilheiro para a Trafaria.



Já margem sul do rio Tejo, prosseguimos pela ciclovia da Costa da Caparica até à Fonte da Telha e a partir daqui, por uma estrada de terra, contornámos a margem norte da lagoa de Albufeira. Depois de lanchar à beira da lagoa, continuámos pela Aldeia do Meco e fomos visitar o cabo Espichel.

Voltámos à estrada e descemos até à praia de Sesimbra pela entrada do castelo, Depois de uma nova paragem, desta vez para um gelado, tivemos que voltar a subir muito até entrar no Parque Natural da serra da Arrábida. Atalhámos por um caminho de terra muito bonito que atravessa uma pedreira e nos leva até à estrada N-379, perto do miradouro da Ponta dos Lagosteiros. A partir daqui foi mais uma descida vertiginosa que nos conduziu até ao Portinho da Arrábida, onde o calor nos convidou a dar um mergulho naquelas águas transparentes e apelativas. Mais frescos, continuámos tranquilamente pelas praias da Figueirinha e Albarquel, atravessámos a fábrica de cimento do Outão e a etapa terminou em Setúbal, onde o jantar foi choco frito…o petisco mais apreciado na região.



Costa Alentejana (190km)

Na manhã seguinte apanhámos o ferry que atravessa o estuário do Sado até Tróia e entrámos na costa alentejana passando pelas praias da Comporta, Carvalhal, Pinheiro da Cruz e Melides. Junto à praia de Melides, através de um atalho pelo pinhal poupámos alguns quilómetros até à lagoa de Santo André.
Retomámos a N-261 até à Vila de Santo André e ao lado da via rápida continuámos até Sines. Junto à central termo elétrica virámos para São Torpes e sempre pela estrada litoral fomos apreciando as belas praias de Porto Covo. Depois de uma pequena paragem no centro de Porto Covo, descemos até ao pequeno porto e continuámos por um caminho de terra até à praia da ilha do Pessegueiro. Como as dunas não nos permitem continuar junto ao mar, fomos apanhar a CM-1072 a caminho de Vila Nova de Milfontes onde fizemos uma paragem para lanchar.


De volta à estrada, atravessámos a ponte sobre o rio Mira e pedalámos alguns quilómetros pela estrada N-39 até ao desvio para essa maravilha da natureza que dá pelo nome de Cabo Sardão e é o ponto mais ocidental da costa alentejana. Em terras da Rota Vicentina, continuámos até à lindíssima praia de Zambujeira do Mar, por uma bonito caminho de terra, sempre ao lado de imponentes escarpas cavadas a pique em direção ao mar.





Prosseguimos por um caminho de terra até à praia do Carvalhal antes de regressar à estrada N-120 e já o sol se tinha posto quando terminámos esta etapa no camping de S. Miguel.
No dia seguinte, após a travessia da ponte sobre a ribeira de Odeceixe, que marca a entrada oficial no Algarve, fizemos um pequeno desvio de 4 quilómetros pela estrada que segue junto ao rio para visitar a praia de Odeceixe, uma das sete praias maravilha de Portugal. De regresso à estrada nacional, fizemos uma paragem perto de Rogil, na irresistível pastelaria Museu da Batata Doce, onde nos deleitámos com uns deliciosos pastéis de batata doce.




Continuámos sempre a descer até Aljezur e dali seguimos em direção ao mar. Depois de mais alguns quilómetros pelos trilhos da rota Vicentina, passando pelas praias da Arrifana e Vale Figueiras, voltámos à N-268 para atravessar a serra antes de mais uma agradável descida até à praia da Carrapateira com a ajuda do vento forte que soprava de Nordeste. E foi num ápice que chegámos a Vila do Bispo, onde voltámos aos trilhos da rota Vicentina. Chegámos ao Cabo de S. Vicente por um magnífico caminho rodeado de vegetação rasteira e salpicado de flores…com o azul do mar sempre em fundo.



A Costa Algarvia (170km)

Tirámos umas fotos no Cabo de S. Vicente e continuámos até Sagres, apreciando as belas praias encaixadas no fundo de falésias abruptas. Depois de uma breve visita à fortaleza, iniciámos a viagem de regresso a Vila do Bispo pedalando contra um vento forte. Foi com alívio que virámos à direita para apanhar a N-125 em direção a Lagos.
Ainda pensámos seguir pela ciclovia algarvia, mas logo percebemos que tinha um traçado mais acidentado do que a estrada nacional. Só na Raposeira desviámos em direção à praia da Salema e continuámos até Lagos pelas praias do Burgau e da Luz.


Depois de atravessar a bonita cidade de Lagos, voltámos à N-125 em direção ao Alvor, onde retomámos o caminho da costa pelas praias do Vau e da Rocha. Era hora de almoço e mais uma vez não resistimos ao apelativo cheiro a sardinhas assadas bem no coração de Portimão. De volta à estrada, atravessámos a ponte sobre o rio Arade em direção ao Ferragudo e seguimos por trilhos muito bonitos sobre grutas e falésias, passando pelas praias do Carvoeiro, Benagil e Nossa Senhora da Rocha. Só em Armação de Pera regressámos às estradas secundárias a caminho de Albufeira, onde passámos sem parar, tal era a confusão de turistas. Continuámos pela Aldeia das Açoteias e uns quilómetros depois chegámos à cosmopolita Vilamoura, em cuja marina fizemos nova paragem para mais um gelado enquanto apreciávamos os belos iates ali ancorados. Após a passagem por Quarteira entrámos nos trilhos da ria Formosa, por onde pedalámos até às proximidades de Faro.





Atravessámos a cidade de Faro e continuámos até Olhão pela N-125. Voltámos às margens da ria Formosa pela excelente ecopista que passa pela Fuzeta, Cabanas, atravessa Tavira e termina perto de Manta Rota. E foi em ecopista que pedalámos os últimos quilómetros por Manta Rota e Monte Gordo, para terminar este desafio em Vila Real de Santo António, na margem direito do rio Guadiana


Balanço

E assim terminámos esta viagem pela costa portuguesa. Ao longo de 900km descobrimos locais espetaculares e ficámos a conhecer melhor a enorme diversidade e os muitos encantos do litoral português. Este imenso património histórico, cultural e paisagístico, associado ao bom clima durante quase todo o ano, apresenta um enorme potencial para que a nossa costa se torne num importante destino do cicloturismo internacional. Mas isso só acontecerá quando a “rede litoral” de ciclovias deixar de ser uma manta de retalhos, e passar a ser uma ciclovia contínua que permita a qualquer cicloturista percorrer toda a costa em total segurança e tranquilidade, desfrutando das cidades, das praias, da gastronomia e da cultura. Para além das ciclovias, também é fundamental investir em estacionamentos seguros, facilidades nos transportes públicos para o transporte de bicicletas e alojamento especializado para receber cicloturistas.

domingo, 17 de setembro de 2017

Transpirinaica 2017


Diário da última etapa do projeto volta à península ibérica em bicicleta (1130km) – a transpirinaica







Introdução
Com a realização da travessia dos Pirinéus eu e o meu amigo Jorge Monteiro concluímos o projeto de contornar toda a Península Ibérica em bicicleta. Este desafio foi iniciado em 2012 e foi sendo realizado por etapas e durante as férias de verão.
Em 2012 pedalámos durante 8 dias pela costa norte de Espanha (951km). Em 2013 recomeçámos em Ribadeo e durante 9 dias pedalámos pela costa da Galiza e Minho (955km). Em 2014 percorremos durante 7 dias a costa da Andaluzia (791km). Durante o ano de 2015 fizemos a costa portuguesa (900km). Em 2016 completámos a ligação entre Barcelona a Almeria (1068km). E este verão concluimos este desafio pedalando 1130km entre Barcelona a Roses e continuando com a travessia dos Pirinéus, desde o Mediterrâneo até ao Atlântico.
Os protagonistas

  Jorge Monteiro  -  Vítor Milheiro

O percurso realizado


Altimetria




As etapas


Etapa 1

Barcelona – Lorett del Mar

82km

Etapa 2

Lorett del Mar - Roses

118km

Etapa 3

Roses – Ribes de Freser

126km

Etapa 4

Ribes de Freser – Moli de Fornolls

86km

Etapa 5

Moli de Fornolls - Llavorsy

85km

Etapa 6

Llavorsy – Torre de Cabdella

66km

Etapa 7

Torre de Cabdella – Pont de Suert

58km

Etapa 8

Pont de Suert – Vale Garona

85km

Etapa 9

Vale Garona - Oto (Ordesa)

80km

Etapa 10

Oto (Ordesa) - Ansó

117km

Etapa 11

Ansó - Orbaizeta

89km

Etapa 12

Orbaizeta - Sunbilla

97km

Etapa 13

Sunbilla - Hondarribia

42km

Total -----------------------  1131km


Total transpirinaica ------ 931km













Etapa 1 – 22 julho (Barcelona - Lorett de Mar) – 82km
 

Depois de viajarmos na véspera, entre Portugal e Barcelona, na manhã de sábado  visitámos Barcelona de bicicleta, passando por alguns dos locais mais emblemáticos desta bela cidade, como a Sagrada Família, o Bairro Gótico, o Arco do Triunfo, as Ramblas…





Depois de almoço realizámos o percurso entre Barcelona e Lloret del Mar. Foi um passeio tranquilo, sempre à beira mar, quase sempre em ciclovia, intercalado com pequenas paragens para uns mergulhos nas águas tépidas do mar mediterrâneo.




Em Piñeda del Mar uma avaria no selim, obrigou-nos a procurar uma casa de ferragens para substituir a peça partida. No final do dia ainda houve tempo para um mergulho na piscina do camping e um passeio pelo centro da cidade.




Etapa 2 – 23 julho (Llorett de Mar- Roses) – 118km



No 2º dia passámos por praias muito bonitas, encaixadas numa costa muito recortada, que obriga a um constante sobe e desce até Sant Feliu de Guixóls.


Só depois de Palamós, onde demos mais um mergulho e almoçámos, é que o percurso se tornou mais suave. A partir daqui, e devido à existência de zonas alagadiças tivemos que nos afastar do mar e foi assim até Torroela de Montgri. Passámos ao lado das ruínas romanas de Empúries perto da praia de L´Escala e em Castelón d´Empúries seguimos pela via rápida até à praia de Roses, onde enchemos uma pequena garrafa com água do Mar Mediterrâneo, com o objetivo de a despejar no Oceano Atlântico, como ato simbólico da concretização da Transpirinaica.


 Já no parque de campismo e quando nos preparávamos para comer uns frangos assados, fomos surpreendidos por uma enorme chuvada, que nos obrigou a jantar no alpendre dos balneários. Esta seria a única chuvada que apanhámos durante toda a viagem.





Etapa 3 – 24 julho (Roses – Ribes de Freser) – 126km



Neste dia deixámos o mar e começou a transpirinaica. A primeira paragem foi em Figueres onde visitámos o teatro–museu Salvador Dali. Depois apanhámos a N-260 até Besalú e entrámos na zona vulcânica de Garrotxa, onde merece destaque a aldeia de Castellfollit de la Roca, construída ao longo de um penhasco basáltico que resultou da confluência de duas correntes de lava.


Depois de passar Olot, o objetivo era Rippoli, mas como o túnel estava vedado às bicicletas tivemos que subir cerca de 14km até Sant Pau de Segúries, por uma estrada secundária muito bonita e tranquila, que em vários pontos se cruzava com uma antiga via romana. E depois foram 6 quilómetros a descer a boa velocidade até Sant Joan de les Abadesses, povoação muito antiga e repleta de monumentos românicos. 


Uns quilómetros depois chegámos a Rippoli, outra cidade com um centro histórico muito rico em monumentos. Estávamos em pleno Vale de Núria e o objetivo era terminar a etapa em Campdevanol, mas com o camping esgotado tivemos que pedalar mais uns quilómetros ao lado do rio Freser até ao camping de Ribes de Freser.


 Etapa 4 – 25 julho (Ribes de Fresser - Moli de Fornolls) – 86km



Depois de uma noite tranquila e repousante, iniciámos a 4ª etapa equipados para 2 dias em autonomia, enquanto a nossa assistência iria passar dois dias em Andorra. Depois de Campdevanol continuámos até Pobla de Lillet onde se destaca uma bela ponte gótica.



Depois de passar por Bagá (alt. 760m) foram necessárias 4 horas a subir para chegar aos prados verdes repletos de vacas a pastar (alt. 1950m). Não foi uma subida fácil, pois as bicicletas iam carregadas e nalguns troços o declive era superior a 10%. Mas, quanto mais subíamos maior era a beleza e grandiosidade da paisagem.




Foi nesta zona que tivemos um pequeno stress, quando um touro, depois de nos avistar, começou a mugir e a caminhar na nossa direção. Já estávamos a planear um plano de fuga, mas o touro mudou de ideias e continuou em direção aos bebedouros e nós aproveitámos para fugir rapidamente dali.
Seguiu-se uma descida espetacular, que começou em estradão, continuou pelos prados verdes e depois por um caminho pedregoso.





 Foi durante esta descida e já em estrada que passámos pelas belas aldeias de Josa de Cadi e de Tuixent, a caminho do vale onde pernoitámos no camping de Moli de Fornolls.





Ao longo desta etapa desfrutámos de várias perspetivas do magnífico rochedo da Pedraforca com os seus 2 cumes com mais de 2400m, meca de alpinistas, onde se encontram os melhores locais de escalada da Catalunha, com paredes verticais de cerca de 800m na face norte.




Etapa 5 – 26 julho ( Moli de Fornolls - Llavorsi ) - 85km



Na 5ª etapa o dia amanheceu fresco e o sol demorou algumas horas a chegar ao vale.
Começámos logo a subir por uma estrada tranquila, com bom piso até ao colo, próximo da aldeia abandonada de Coldarnat (alt. 1250m). A partir daqui foi sempre a descer até Noves de Segre, por vezes por caminhos pedregosos e com bastante declive. No vale esperámos pela assistência que nos trouxe comida, pois ao longo do caminho não encontrámos nenhum café ou minimercado. Aproveitámos para deixar alguma bagagem usada para acampar na noite anterior, durante a etapa que realizámos em autonomia. Logo à saída de Noves de Segre (alt. 670m) enchemos os cantis numa fonte de água fresca e comecámos a subir. A primeira parte da subida foi em terra até perto de Argestues, onde aproveitámos para dormir uma sesta no alpendre da igreja e encher de novo os cantis.


Passámos em Canturri (alt. 1400m) e continuámos a subir até chegarmos a uma floresta num planalto a 1700m, por onde pedalámos durante muitos quilómetros. Passámos por uma antiga casa de guardas florestais, por um luxuoso albergue de montanha e por uma igreja muito original. Depois voltámos a descer vertiginosamente por mais uma estrada pedregosa. E foi nesta descida desconfortável e cansativa, a caminho de Montelartro, que o meu companheiro de viagem bateu violentamente numa pedra e rebentou o pneu de trás. A etapa terminou em Llavorsi, vila onde a canoagem e o rafting são desporto rei. Pernoitámos num bonito camping mesmo ao lado do rio e adormecemos a ouvir a água do rio a correr.




Etapa 6 – 27 julho (Llavorsi – Torre de Cabdella) – 66km



Esta foi para mim a etapa rainha desta travessia, não só pela altitude, mas também pela beleza e imponência da paisagem. Depois de alguns quilómetros na estrada nacional, virámos à esquerda e começámos a subir por uma estrada em muito mau estado, que passava em Arestui e Baiasca, (alt. 1200m). E continuámos a subir durante mais 15 quilómetros.


A paisagem era realmente deslumbrante e assim continuou durante as várias horas e os cerca de 20 quilómetros em que andámos acima dos 2200m. Depois da floresta, que vai até aos 2000m, entrámos nos prados verdes, salpicados de centenas vacas, cavalos e ovelhas a pastar, rodeados de alguns cumes próximo dos 3000m. Pelo caminho passámos por 3 refúgios de montanha.



Eram quase 19h quando avistámos a aldeia de Espui (alt. 1150m) no fundo do vale e em menos de meia hora descemos cerca de 20km, sempre em zigzague por um caminho de terra . Depois de atravessar Espui continuámos mais 4km até ao camping de Torre de Cabdella.




Etapa 7 – 28 julho (Torre de Cabdella – El Pont de Suert) -  58km



Começámos a pedalar eram 9h30 e alguns quilómetros depois de Pont de Suert virámos à direita e começámos a subir a caminho de Astell. A seguir à aldeia entrámos num single-track que se foi tornando num pedregoso caminho completamente não ciclável. Foram precisas algumas horas para chegar ao colo de Oli (alt. 1506m), boa parte a subir com a bicicleta às costas e durante a descida que veio a seguir o piso não melhorou,  o que nos obrigou a desmontar da bicicleta várias vezes.


A descida continuou e o piso foi melhorando até  Sentis (alt. 1200m), mas seria sol de pouca dura, pois voltámos a subir para passar outro porto de montanha (alt. 1500m). E  logo a seguir outra descida, agora em alcatrão, com curvas muito apertadas e grande inclinação. No vale, aproveitamos para encher os cantis junto a um campo de férias de jovens e voltámos a subir, passando pelas aldeias de Sas e Erta, onde abastecemos de água antes de continuar a subir até novo porto de montanha do dia (alt. 1600m). Foi aqui que nos cruzámos com alguns “bttistas” e com um ciclista, vítima de uma queda que estava ferido e cheio de sede, com quem partilhámos a água do nosso bidon. Voltámos a descer bastante e foi nesta zona que o Jó teve o segundo furo da viagem. Depois de remendar o furo, continuámos a descer, com mais cautela, pois as curvas estavam perigosas devido às areias se vão desprendendo do alcatrão.



Antes de chegar a Pont de Segur,  passámos por Malpás, aldeia muito bonita, onde descansámos à sombra de umas arcadas com um largo simpático com um chafariz, em cujo tanque aproveitámos para mergulhar os pés. Depois de mais alguns quilómetros de sobe e desce, chegámos finalmente a El Pont de Suert. Depois de um mergulho na piscina, fizemos uma revisão às bicicletas.




Etapa 8 – 29 julho (El Pont de Suert – Vale Garona) - 85km



Saímos do camping preparados para mais 2 dias em autonomia. Começámos a subir em direção a Bonanza (alt. 1400m) onde fizémos uma breve paragem para beber uma coca-cola. Seguiu-se uma descida espetacular através de um vale muito bonito.


Nova subida até apanharmos a N-260 e depois mais uma  espetacular descida até ao cruzamento para Gabás, onde apanhámos um caminho de terra e depois uma descida com piso em muito mau estado até Seira, onde de novo na N-260 pedalámos durante alguns quilómetros  ao lado do rio Esera, apreciando as excelentes condições deste rio para canoagem de águas bravas. Junto à barragem da Central de Argoné (alt. 680m) virámos para Senz e continuámos para Viu (alt. 1020m) onde lanchámos, antes de entrar no Vale de Garona.


 A partir daqui foi sempre a subir, muitas vezes com declives que nos obrigavam a desmontar da bicicleta. Passámos por um refúgio, mas decidimos continuar até perto da Peña Montanñesa (alt. 1450m) onde acantonámos num abrigo feito com troncos e um toldo que levávamos na bagagem. Estava uma noite ótima e adormecemos a ver a lua a passar por cima das montanhas.





Etapa 9 – 30 julho (Vale Garona -Oto (Ordesa) - 80km



Levantámo-nos cedo e às 7h50, depois de desmontar o toldo e comer qualquer coisa, já estávamos a pedalar. Ainda subimos mais um pouco até ao acesso à montanha de Peña Collada (alt. 1560m). Seguiu-se mais uma longa descida até Laspuna. Nesta altura ambas as bicicletas estavam com problemas mecânicos, uma nos travões e outra no eixo traseiro.

Na povoação de Escalona, que fica no vale (alt. 670m), soubemos que havia uma oficina de bicicletas em Ainsa. Reparadas as bicicletas voltámos a Escalona para apanhar a estrada HU-631 que segue junto ao rio  e passa pelo trilho do Cañon de Anisclo. Mas devido a um desabamento esta estrada estava encerrada, pelo que tivemos que seguir por uma estrada alternativa que passava em Buerba e Vió.

Perto de Puyarruego e antes de iniciar a longa subida para Vió, parámos para mais uma banhoca na praia fluvial de rio Vellos.



Durante a subida até ao alto de Fanlo (alt. 1540m), estivemos à conversa com uma ciclista madrilena, que também estava a fazer a transpirenaica com uns amigos. E voltámos a descer durante vários quilómetros até Sarvisé, antes de virar para Ordesa. E o dia terminou com um  banho na piscina e umas febras grelhadas no camping de Oto (alt. 880m).




Etapa 10 – 31 julho (Oto (Ordesa) - Ansó – 117km)



Antes de iniciar a décima etapa parámos em Broto para comprar comida e continuámos a descer até SarviséFiscal, onde apanhámos a N-233 para nova subida até um porto de montanha (alt. 1500m), com passagem por um longo túnel antes de iniciar uma espetacular descida até Sabinanigo, onde atingimos 74km/h. Depois de comprar mais comida, continuámos até Jaca pela estrada que segue pelo vale, evitando assim um porto de montanha acima dos 1500m. E foi a rolar a grande velocidade que chegámos a Jaca, importante cidade porta de entrada para os Pirinéus, depois de vários quilómetros a pedalar na roda de um ciclista de estrada. A paragem seguinte foi em Castiello de Jaca, onde almoçámos à sombra junto a um rio, num local de passagem do caminho de Santiago Aragonês.



E voltámos a subir durante vários quilómetros para ultrapassar mais um porto de montanha antes de descer para Aisa, onde lanchámos antes de voltar a subir acima dos 1100m antes de apanhar a descida para Jasa.
Depois de mais uma descida espetacular, parámos junto a uma praia fluvial para mais um mergulho. Com uma nova energia, retomámos o caminho sempre ao lado do rio até Echo onde virámos à esquerda. Depois de mais uma subida, iniciámos a última descida do dia, através de um desfiladeiro e  2 túneis. E finalmente chegámos ao camping de Ansó, precisamente 12 horas e 117km depois de termos montado na bicicleta.




Etapa 11 – 1 agosto (Ansó - Orbaizeta – 89km)



Depois de passar no centro histórico de Ansó, onde comprámos comida, pedalámos durante vários quilómetros pelo vale de Ansó, sempre à beira do rio Veral. A seguir ao imponente desfiladeiro subimos até aos 1200m antes de descer para Isaba. Uns quilómetros depois de Uztarroz, antes de subir até novo porto de montanha,  almoçámos com a nossa assistência.


Retomámos a viagem em direção à fonteira com França e passámos numa estância de ski de fundo, onde deixámos o alcatrão para continuar por um espetacular single track que atravessa uma floresta densa. No vale entrámos de novo numa floresta  por onde fomos subindo até aos 1320m antes de nova descida por um estradão com bom piso até Casas de Irati onde apanhámos a ecopista do embalse de Irábia, que durante alguns quilómetros  acompanha a barragem até ao paredão. A partir daqui seguimos por uma estrada de cimento, sempre a subir até aos 1100m, onde iniciámos uma última descida até à entrada do parque natural de Arrazola onde havia num acolhedor “open camping” e uma zona de piquenique onde cozinhámos um belo jantar com que terminou esta jornada.






Etapa 12 – 2 agosto (Orbaizeta - Sunbilla – 97km)



Depois uma noite tranquila, iniciámos a penúltima etapa passando por Orbaizeta, outrora uma importante fábrica de armas e hoje completamente em ruínas. Continuámos a subir mais 17km até Roncesvalles (alt. 900m), primeiro local de descanso de peregrinos depois de atravessarem os Pirinéus Franceses.

Roncesvalles é um pequeno “pueblo” religioso onde todos os anos milhares de peregrinos iniciam o caminho francês de Santiago e onde se destacam a singela Igreja de Santiago do séc. XIV e a imponente Igreja de Santa Maria com os seus belos claustros.




Continuámos a subir até ao porto de montanha onde fica a capela do Puerto de Ibarreta (alt. 1080m), local de passagem dos peregrinos que vem de Sant Jean de Luz. Aqui virámos à esquerda em direção ao antigo posto fronteiriço e já em território francês, descemos durante largos quilómetros por uma bonita e tranquila estrada, até à vila francesa de Banca (alt. 280m) onde tudo à nossa volta era verde salpicado de belas casas de montanha.


Depois de um almoço à base de barras energéticas e fruta, e em plena hora do calor, iniciámos aquela que seria a última subida desta viagem, com bom piso, mas grandes declives. Depois de mais um porto de montanha, entrámos de novo em Espanha e sempre rodeados de uma paisagem verdejante, iniciámos mais uma longa  descida até  Erratzu (alt.  280m).



A partir  daqui foi sempre por boas estradas e a perder altitude lentamente, que chegámos a Elizondo, vila muito bonita e com muitos pontos de interesse, onde finalmente pudemos comprar comida “decente” e alguns souvenirs.


De volta à estrada foi a bom ritmo que chegámos à povoação de Sunbilla, mas para chegar ao camping, que ficava fora da vila e num local alto, foi preciso subir uma rampa final de categoria especial.


Etapa 13 – 3 agosto (Sunbilla - Hondarribia) – 42km



E finalmente a última etapa. Foi uma etapa tranquila e sem grandes desníveis pela estrada que segue junto ao rio Bidasoa. Perto de Irun atravessámos a ponte para o lado de Hendaya e continuámos pela ciclovia que segue ao longo da margem. E foi um momento fantástico quando, cinco anos depois, regressámos à estação de comboios de Hendaya, depois de termos concretizado com sucesso o desafio de pedalar contornando toda a península Ibérica, numa extensão total superior a 5500 quilómetros.


 Tirámos fotos nos mesmos locais de há cinco anos atrás e voltámos à estrada para concluir o outro desafio – a transpirenaica. Ainda faltava chegar à praia de Hondarribia, onde simbolicamente despejámos no Oceano Atlântico a água que transportámos desde a praia mediterrânica de Roses, durante mais de 930km.


 
Balanço Final




Foi a mais espetacular expedição que fiz até hoje.
É uma combinação perfeita viajar de bicicleta, esse espetacular veículo que nos permite contemplar com todos os sentidos tudo aquilo que nos rodeia, desfrutando de paisagens espetaculares, montanhas a perder de vista, cidades de grande riqueza histórica e cultural e belas aldeias esquecidas no meio da montanha.
Aquilo que mais me marcou foi o prazer de pedalar tantas horas em locais tranquilos e em perfeita sintonia com a natureza e contemplar a imensidão, a grandiosidade e a beleza das montanhas.




Foi com grande satisfação que concluí este desafio, em que para além dos muitos quilómetros pedalados, implicou alguns custos financeiros e familiares e que nos obrigou a muitas horas de planeamento (percurso, datas, deslocações, dormidas, etc.).

Tudo correu bem a nível logístico, físico, mecânico e relacional.
Em termos mecânicos tivemos apenas dois furos e foi preciso mudar as pastilhas dos travões e reparar o eixo traseiro.
A nível físico nada a registar e no plano logístico foi uma mais-valia termos carro de assistência, que nos permitiu viajar a maioria das etapas com pouca bagagem.

A nível relacional mais uma vez existiu um bom entendimento entre os dois, nunca deixámos que o cansaço, as condições climatéricas ou os contratempos afetassem o bom clima. Soubemos sempre respeitar as diferenças de opinião e foram sempre pacíficas as decisões relativas ao percurso, à alimentação e aos locais de dormida. E a boa disposição foi uma constante, conseguíamos rir e dizer piadas mesmo durante as subidas mais difíceis.






Vítor Milheiro' 2017




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